Fabiana Lima: Crítica de Fim de Semana no Paraíso Selvagem

Pelo segundo ano consecutivo, Fabiana Lima será crítica do Festival Guarnicê de Cinema. Nesta edição, ela produzirá as críticas dos seis longas-metragens que compõem a programação do festival. Confira a avaliação de “Fim de Semana no Paraíso Selvagem”, de Severino, em exibição hoje (11) no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, 283) às 19h45. A obra também ficará disponível de modo virtual a partir das 17h30 até às 18h de segunda (12).

Fabiana Lima

O Festival Guarnicê de Cinema

Quarto mais longevo festival de cinema do país, o Guarnicê celebra o audiovisual maranhense e nacional há 46 anos. Promovido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o festival ocorre entre os dias 09 e 16 de junho. O Guarnicê tem patrocínio da Equatorial Energia, Museu da Memória Audiovisual do Maranhão(MAVAM) e do Governo Federal por meio do Banco do Nordeste.

Conta também com o apoio da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão (ALEMA), Fundação Sousândrade, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Eduplay, Secretaria de Estado da Educação (SEDUC), Centro Cultural do Ministério Público, TV UFMA, Rádio Universidade, Secretaria Municipal de Educação (SEMED), SESC, Associação Maranhense de Desenvolvedores de Jogos, Bulldog, Gráfica A5, Mar Doce, Teatro João do Vale e Teatro Arthur Azevedo.

Confira a crítica:

Tire as construções da minha praia, não consigo respirar. Especulação imobiliária, e o petróleo em alto mar. Penso que esse trecho da música Lucro (Descomprimido) da banda BaianaSystem é o ponto de partida perfeito para iniciar um texto sobre Fim de Semana no Paraíso Selvagem ao descrever, quase que com perfeição, o mote principal da trama do filme e suas quase duas horas de duração. 

Na obra com inspirações claras no estilo noir, Severino irá dirigir um filme que aborda uma clara questão social (a repercussão fática da construção de uma refinaria no bairro Paraíso), porém partindo de um espectro bastante intimista: a morte de Rodrigo, irmão da protagonista, Rejane e as consequências dessa tragédia para diversos personagens. Enquanto para uns a morte de Rodrigo irá implicar em um luto cheio de saudade e  sofrimento, para outros é criada uma urgência contratual imediata, rodeada de uma ambição que não dá para esperar.

Still de Fim de Semana no Paraíso Selvagem

A obra ainda sustenta todas essas motivações diversas na abstração da imagem deste, que só aparece nos primeiros minutos do filme sem maiores contextos. Portanto, a trama acaba utilizando-se da descorporificação desse personagem importante para impor no espectador sentimentos conflituosos, mistos, sobre essa pessoa que embora não de corpo, está presente como algo que paira sob Paraíso, na atmosfera mesmo, tal como um Rebecca (1940) de Hitchcock, por exemplo.

Embora não o vejamos com nossos próprios olhos, construímos com base nos relatos a nossa própria ideia dele e de quem ele foi. Uma boa pessoa, gananciosa ou injustiçada? Não temos como ter certeza. É tudo parte de vieses diferentes em enxergar esta vida, que pode ou não ter sido ceifada por um acidente, algo que pouquíssimas pessoas parecem acreditar por ali. A partir disso, o filme irá criar um mistério que ronda sua imagem, que é de fato o mote principal para a discussão da realidade local violenta e desoladora. 

Em várias capitais do nordeste, como Recife, Salvador e São Luís, refinarias de petróleo e construção de portos, algo recente no Brasil moderno, acabaram por expulsar diversos moradores locais das regiões litorâneas e aumentar a especulação imobiliária nessas capitais. Socialmente, isso se tornou um fator incontornável de discussão, especialmente no cinema e em Recife, onde Kleber Mendonça Filho fez filmes como Aquarius e O Som ao Redor. 

Hoje, isso claramente inspira cineastas como Severino e filmes como Fim de Semana no Paraíso Selvagem. A discussão social em torno de como famílias inteiras foram afetadas em prol desse suposto desenvolvimento econômico e o reflexo disso no aumento da violência nessas regiões realmente serve de base para um filme noir moderno, cujo sentimento social ainda guarda espaço para um escopo minimalista na figura de Rejane – interpretada brilhantemente por Ana Flavia Cavalcanti.

Paraíso representa, assim, centenas de outras cidades brasileiras cujo desenvolvimento econômico foi construído na base de muito sofrimento familiar e muita violência. A ganância que levou e ainda leva diversos homens cujos rostos a gente desconhece, ao esquecimento inevitável. Uma maldição eterna que o dinheiro alimenta. ”

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