Fabiana Lima: Crítica de No Vazio do Ar

Pelo segundo ano consecutivo, Fabiana Lima é crítica do Festival Guarnicê de Cinema. Nesta edição, ela produzirá as críticas dos seis longas-metragens que compõem a programação do festival. Confira a avaliação de “No Vazio do Ar”, de Priscilla Brasil, em exibição hoje (13) no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, 283) às 20h05. A obra também ficará disponível de modo virtual a partir das 17h30 até às 18h de quarta-feira (14).

Fabiana Lima durante cerimônia de encerramento do Guarnicê 2022

O Festival Guarnicê de Cinema

Quarto mais longevo festival de cinema do país, o Guarnicê celebra o audiovisual maranhense e nacional há 46 anos. Promovido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o festival ocorre entre os dias 09 e 16 de junho. O Guarnicê tem patrocínio da Equatorial Energia, Museu da Memória Audiovisual do Maranhão(MAVAM) e do Governo Federal por meio do Banco do Nordeste.

Conta também com o apoio da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão (ALEMA), Fundação Sousândrade, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Eduplay, Secretaria de Estado da Educação (SEDUC), Centro Cultural do Ministério Público, TV UFMA, Rádio Universidade, Secretaria Municipal de Educação (SEMED), SESC, Associação Maranhense de Desenvolvedores de Jogos, Bulldog, Gráfica A5, Mar Doce, Teatro João do Vale e Teatro Arthur Azevedo.

Confira a crítica:

“Um bom filme pode, muitas vezes, nascer das ideias mais simples e No Vazio do Ar é um exemplo disso. Quando a sobrinha que recebe herança de um tio ex-piloto sai em busca de resgatar a sua história para manter preservada a sua memória, provavelmente mal sabia que estaria evidenciando a vida e a luta de pelo menos uma centena de brasileiros que têm o sonho de pilotar um avião profissionalmente.

Realidade desconhecida por muitos brasileiros, o dia-a-dia e os dilemas travados por pessoas que sem mmuitas condições financeiras desejam seguir a profissão é angustiante. Invisibilizadas pelo Estado e pelos próprios colegas, o documentário nos coloca frente a frente com pessoas que fazem de tudo um pouco, incluindo serviços gerais, na tentativa de conseguirem horas de voo suficientes para tirar a licença, o famoso “brevê”.

Dentre as histórias que mais me tocaram, está a de Patrícia. Uma mulher que sonha em pilotar aeronaves mas que por conta do salário baixíssimo que recebe e do machismo que sofre nesse meio, se vê limitada e sem perspectiva de futuro dentro da profissão que escolheu. Suas falas são, de longe, as que mais me tocaram. Ganhando cerca de dois mil reais por mês, Patrícia relata problemas com a aeronave que ela mesma tem de resolver, busca por horas que parecem nunca acabar e reclamações que nunca são ouvidas.

Ao mesmo tempo que histórias como essas nos tocam, a narração desvenda “mistérios” por trás da história de pilotos e pequenas aeronaves na região do Pará que ligam o local e o meio profissional, como um todo, a crimes como organização criminosa e tráfico de drogas. Pilotos que ganham abaixo do piso salarial e mal conseguem se manter acabam muitas vezes se rendendo a esse tipo de trabalho que pode levá-los à prisão e, até mesmo, à morte.

No meio desses temas, a narração, as fotografias e os acervos de vídeos caseiros do tio aparecem em tela, como se a cada relato, nós pudéssemos ver mais do tio – ainda que ele não esteja mais entre nós. É como se conhecer as pessoas com quem ele compartilhou interesses e o local onde ele esteve, por tanto tempo, desse para nós um vislumbre de quem ele já foi um dia – e do que ele já viu, também.

Uma magia que o Cinema permite pois, diante de um filme tão simples, cuja premissa é a princípio descompromissada, acabam nascendo questões que vão além da relação sobrinha-tio que permeia aquela motivação inicial, torna-se uma reflexão social de importância massiva que nos mostra um outro lado do Pará e do país, escondido sobre as nuvens. Puxando uma das frases ditas no início, o filme de Priscilla Brasil mostra que ser piloto no Brasil de fato não tem nada a ver com Top Gun.

No Vazio do Ar é uma denúncia social em forma de relato íntimo, a prova de que de uma história una, podem nascer várias. De um só tema, faz-se um mundo inteiro, nem sempre fácil de enxergar mas necessário de se compreender. Uma direção altamente competente, que quando menos esperamos nos coloca para refletir, sorrir e se emocionar”

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