Fabiana Lima: Crítica de Praia do Silêncio

Pelo segundo ano consecutivo, Fabiana Lima será crítica do Festival Guarnicê de Cinema. Nesta edição, ela produzirá as críticas dos seis longas-metragens que compõem a programação do festival. Confira a avaliação de Praia do Silêncio, de Francisco Garcia.

O Festival Guarnicê de Cinema

Quarto mais longevo festival de cinema do país, o Guarnicê celebra o audiovisual maranhense e nacional há 46 anos. Promovido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o festival ocorre entre os dias 09 e 16 de junho. O Guarnicê tem patrocínio da Equatorial Energia, Museu da Memória Audiovisual do Maranhão(MAVAM) e do Governo Federal por meio do Banco do Nordeste.

Conta também com o apoio da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão (ALEMA), Fundação Sousândrade, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Eduplay, Secretaria de Estado da Educação (SEDUC), Centro Cultural do Ministério Público, TV UFMA, Rádio Universidade, Secretaria Municipal de Educação (SEMED), SESC, Associação Maranhense de Desenvolvedores de Jogos, Bulldog, Gráfica A5, Mar Doce, Teatro João do Vale e Teatro Arthur Azevedo.

Fabiana Lima foi crítica do festival na última edição

“Em L’Avventura, Antonioni desenha a incomunicabilidade entre dois personagens por meio de diálogos que escondem seus sentimentos, ao invés de expô-los. Antítese do status quo que existe em filmes Hollywoodianos, essa obra é sobre um mistério cuja solução jamais é foco. O diretor, autor da Trilogia da Incomunicabilidade, da qual este filme faz parte, está muito mais preocupado em levar o espectador por uma viagem emocional, motivada pelo desaparecimento de uma mulher apenas pelas imagens desoladoras em que sua figura vai e vem, na imensidão dos planos abertos na praia, do que quaisquer outros aspectos.

A Praia do Silêncio me fez sentir como Antonioni um dia também me fez sentir: absolutamente desolada pela complexidade das relações humanas – e a nossa impossibilidade de comunicá-las, muitas vezes. Porém, ao contrário dos diálogos de Antonioni que mascaravam sentimentos diversos, Francisco Garcia optou até por expô-los, mas de uma maneira onde o isolamento ainda continua estampado em tela. Para tal, o diretor utiliza-se da narração em voice-over como o dispositivo narrativo que irá dividir conosco a relação complexa dos personagens, por meio de correspondências trocadas entre eles durante anos.

Still de Praia do Silêncio

O sentimento que sai das palavras não ditas nos pontuais diálogos, aqui é substituído por esta leitura, uma narração, que impossibilita que nós consigamos ver expressões físicas ou mesmo qualquer tipo de contato humano, que seja, entre os personagens dessa história. Por meio de planos abertos e planos médios, em sua maioria, Garcia evita os close-ups a menos que seja para maximizar a sensação de solidão humana. Ainda quando dois personagens encontram-se no mesmo frame, não há calor. Tons frios, de azul e verde, permeiam essa obra que realmente tem como palavra de ordem o mais profundo e triste silêncio.

Todas essas escolhas, que priorizam os sentimentos mais profundos relacionados à solidão, desolação e demais sinônimos, condizem com o tema que aqui é profundamente abordado: a paternidade. Ou melhor, a ausência paterna. O filme se baseia em uma história de conflito, desencontro e mágoa. Realidade para milhões de brasileiros, Laura e Lúcia são abandonadas por André, que busca fugir do mundo e abraçar seu próprio fracasso, indo em direção ao alcoolismo. 

O alcoolismo, eu digo, parece ser o maior subterfúgio da depressão masculina – pelo menos eu creio que o é há mais tempo do que podemos ter ideia. Homens bebem para amparar a tristeza e se utilizam dessa muleta emocional para justificar seu afastamento do seio familiar, das suas obrigações, as quais deixam a cargo das inúmeras mulheres cujas vidas se transformam em um pesadelo maior do que qualquer um deles poderia imaginar. 

No entanto, mesmo apontando isso, Praia do Silêncio não é um filme sobre condenação deste ou daquele ou redenção desta ou daquela. Todo sofrimento que permeia essa família desestruturada e emocional e geograficamente distante, pode até ter sido promovido em princípio pela covardia e egoísmo de André, mas à medida que o tempo passa – ou melhor, as correspondências passam – fica cada vez mais claro que existem sentimentos e conflitos bem mais complexos nas relações humanas que apenas estes, ou a culpa, ou o rancor.

Existe a descrença. Descrença no país, descrença na política, o pessimismo de uma vida que carece de qualquer vislumbre de melhora. Esse pessimismo latente é assunto de muitas correspondências entre Lúcia e André, o que implica dizer que ambos não pareciam ver o futuro com boas lentes na maior parte do tempo. Ainda, próximo do fim, existe o desmoronamento da figura desse homem, algo que me lembrou bastante o jovem Aftersun de Charlotte Wells no que tange à inevitável reflexão sobre a crise da imagem desse pai, especialmente, como um ser que não humano e, por isso, falho. O ato de chorar, em ambos filmes, atribui ao personagem que representa essa paternidade um olhar muito mais humano, não atribuindo a este uma posição de vitimismo, mas sim encarando o fracasso deste como parte da vida, do existir. Como diz André, “o que caracteriza o homem é o fracasso”.

Ele sabe que irá carregar uma cruz eterna, uma culpa que jamais será esquecida e que, de fato, sua escolha em abandonar sua família irá transformar seu paraíso perdido e o resto da sua vida em um inferno. Mas é tarde demais para mudar, tarde demais para criar um vínculo, ele apenas pode fantasiar esse momento, como quem pensa mas nunca realiza. Ao final, Praia do Silêncio é um belíssimo filme, tanto visualmente fascinante porque permite que nossos olhares sejam inundados com tanto sentimento, tão profundos quanto o mar que a praia alenta, enquanto personagem de fundo, quanto pelo tema abordado e a sensibilidade com a qual o aborda. ”

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