Melissa Almeida: Crítica de No Vazio do Ar

Melissa Almeida, do Arte como Lar, será uma das críticas da edição 46 do Festival Guarnicê de Cinema. Ela produzirá as resenhas dos seis longas nacionais que compõem a programação. Aqui, ela avalia o filme “No Vazio do Ar”, de Priscilla Brasil, em exibição hoje (13) no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, 283) às 20h05. A obra também ficará disponível de modo virtual a partir das 17h30 até às 18h de quarta-feira (14).

Melissa Almeida

O Festival Guarnicê de Cinema

Quarto mais longevo festival de cinema do país, o Guarnicê celebra o audiovisual maranhense e nacional há 46 anos. Promovido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o festival ocorre entre os dias 09 e 16 de junho. O Guarnicê tem patrocínio da Equatorial Energia, Museu da Memória Audiovisual do Maranhão(MAVAM) e do Governo Federal por meio do Banco do Nordeste.

Conta também com o apoio da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão (ALEMA), Fundação Sousândrade, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Eduplay, Secretaria de Estado da Educação (SEDUC), Centro Cultural do Ministério Público, TV UFMA, Rádio Universidade, Secretaria Municipal de Educação (SEMED), SESC, Associação Maranhense de Desenvolvedores de Jogos, Bulldog, Gráfica A5, Mar Doce, Teatro João do Vale e Teatro Arthur Azevedo.

Confira a crítica:

“No Vazio do Ar, documentário dirigido por Priscilla Brasil, é uma obra que trata de diversos temas a partir da busca da diretora em descobrir o que leva alguém a se tornar piloto na Amazônia, uma profissão mal valorizada e às vezes fatal. Para isso, ela visita o Aeroclube do Pará, aeroporto em que seu tio era piloto, trinta anos depois da sua morte. Na sua busca por respostas acaba abordando assuntos como a valorização da memória, a arquitetura como contadora de histórias, machismo, a luta por sonhos e a passagem do tempo.

Com imagens de fotos antigas do tio e outros objetos, Priscilla fala de forma muito pessoal sobre algumas lembranças com o tio e o aeroporto, nos explicando a motivação de fazer o documentário. Quando criança, o tio a levava todos os sábados pra lá, expressando sua relação com aquele espaço. Trinta anos depois a passagem do tempo é percebida pelos destroços de aviões, pelo estado em que se encontra o hangar e pela cidade ao redor da pista de pouso. Através de algumas composições do filme, a diretora nos mostra a relação da arquitetura com a construção das nossas memórias. A arquitetura faz parte da nossa memória coletiva e pessoal. Revisitar espaços com algum significado pra nós traz uma bagagem de lembranças e vivências, nos fazendo voltar no tempo. Priscilla aborda como a cidade que cresce desenfreadamente vem sufocando o aeroporto ao longo dos anos e o espaço vem sendo esquecido, fazendo dele uma ilha isolada. O aeroporto já não cabe mais ali. Ninguém que vive ao redor sabe muito sobre ele, no máximo soube da queda de algum avião. 

A cidade crescendo ao redor do aeroporto em No Vazio do Ar (2022)

No meio do caminho, somos apresentados a Patricia, pilota que trabalha para o prefeito de Redenção. E através dela vemos como é ser mulher em um meio majoritariamente masculino. Patricia é sonhadora e a história dela nos comove desde o início. Conhecemos uma mulher corajosa por seguir seus sonhos mesmo com um retorno financeiro baixíssimo e lutando por um pouco de reconhecimento. A diretora enfatiza as dificuldades que se enfrenta por ser mulher ao colocar em sequência as falas de Patrícia e Nadinho, outro piloto. Após um discurso comovente e doloroso de Patricia onde ela fala a respeito da falta de reconhecimento, das suas condições de moradia e de tudo que teve que abrir mão pra seguir seu sonho, ouvimos em um contraste sem igual, o discurso de Nadinho, que fala das maravilhas, privilégios e realizações da sua profissão. É difícil aceitar como verdade que os dois exercem exatamente a mesma função, pelo menos de forma técnica, depois que descobrimos o destino de Nadinho. As composições da imagem conversam com essas condições, quando Patrícia aparece enquadrada sozinha em um plano aberto. 

Plano aberto apresenta Patricia sozinha em No Vazio do Ar (2022)

No Vazio do Ar é o registro de uma busca inocente por respostas e acaba tratando de assuntos bem mais profundos e complexos. Priscilla constrói as imagens com muita beleza, e, no final, incita um pensamento que nos atravessa sobre a nossa passagem pela vida. A passagem do tempo apaga as lembranças, lugares, pessoas e também engole espaços. Documentar é uma forma de tentar mantê-las mais tempo na memória.”

Copyright © 2024 • 46º Festival Guarnicê de Cinema | Pró-Reitoria de Extensão e Cultura | Diretoria de Assuntos Culturais